A nossa carta ética  


Ao escolher os Açores, os viajantes "Espaço Talassa" procuram aventurarem-se longe do tumulto quotidiano, para reencontrarem o sabor do tempo, para se maravilharem o encontro dos golfinhos e baleias e também para conhecerem pessoas diferentes.

Todavia, a nossa presença por vezes perturba a harmonia do mar, dos seus habitantes e pode incomodar a ancestral quietude açoriana. Com esta carta propomo-nos minimizar o nosso impacto, como também contribuir pessoalmente para a salvaguarda das culturas e da natureza, não deixando atrás de nós mais que a vaga branca da esteira dos nossos barcos. Pelo respeito daqueles que encontramos, pela compreensão e protecção daquilo que observamos, vocês e nós participamos não apenas no êxito da vossa viagem, mas também no desenvolvimento sustentável do turismo em terra Açoriana.

Antes da viagem :

* Procuramos dar-vos o máximo de informação sobre os animais que vão observar, nomeadamente :

  • Temos à vossa disposição a nossa biblioteca, videoteca, o acesso à internet, as nossas estatísticas e trabalhos de investigação desde 1993.
  • Fazemos antes de cada partida uma apresentação de aproximadamente 20 minutos, apresentando os cetáceos do mar Açoriano (habitat, comunicação, comportamento, ...).
  • Utilizamos os serviços de biólogos que podem responder às questões mais específicas e mais recentes.

           

Com os animais :

Ei-los!!! A reacção dos animais à nossa presença torna-se na prioridade absoluta da nossa conduta e mesmo da nossa permanência em redor dos cetáceos.

* Antes de se aproximar de animais em grupo assegure-se de :

  • A espécie que vai observar (cada espécie tem uma reacção diferente à presença dos barcos).
  • A presença de juvenis no grupo.
  • O seu estado de actividade (deslocação, alimentação, fuga,...)

* Cada observação é uma história diferente, embora a conduta a seguir seja de maneira geral :

  • Aproximar dos animais pelos 3/4 posteriores, com velocidade reduzida e constante.
  • Nunca se aproximar a menos de 50 metros.
  • Nunca posicionar o barco entre crias e progenitores.
  • Evitar a presença de vários barcos num raio de 150 metros em redor do grupo. No caso de haver várias embarcações nunca cercar os animais, mas permanecer em conjunto com as restantes do mesmo lado dos cetáceos.
  • Não permanecer mais de 10 minutos com o mesmo animal.
  • Quando se estiver a afastar do grupo, manter uma velocidade reduzida enquanto estiver a menos de 300 metros dos animais.
  • Nunca tente tocar ou alimentar um animal.

    Nadar com os golfinhos é um privilégio e um momento excepcional, razão pela qual a decisão de deslizar para a água na sua companhia é da inteira responsabilidade do skipper. Apesar das sensações fortes que estes encontros submarinos procuram, os animais não estão sempre dispostos a partilhar a sua intimidade (presença de crias, caça, acasalamento, alimentação, ...). Para além disso, o estado do mar, as espécies observadas, as suas capacidades de natação, são outros elementos que serão tidos em consideração pelo vosso guia. Em qualquer dos casos, apenas a natação em apneia (sem garrafas) com 5 especies é autorizada: Delphinus delphis, Stenella frontalis, Stenella coeruleoalba, Tursiops truncatus, Grampus griseus,...

Pensamos que a informação e o conhecimento contribuem para a protecção dos animais. É por esta razão, que no âmbito dum trabalho de investigação, ou da recolha de imagens à superfície ou submarinas, algumas das regras de conduta enunciadas não podem ser respeitadas integralmente. Todos os casos de não respeito integral por estas regras são considerados como casos excepcionais e na medida em que não há outras soluções técnicas. As perturbações provocadas nos animais são na maior parte das situações diminutas.

           

Respeito e encontro :

  • Não faça ideias rápidas tiradas a partir de acontecimentos acidentais de um povo cuja cultura está marcada por 150 anos de caça à baleia.
  • Na vila use roupas adequadas, não se mude (fato de mergulho, fato de banho, ...) nos locais públicos (porto, cais, ...), mas sim nas instalações da base.
  • Não fotografe as pessoas sem lhes ter pedido autorização.
  • As gorjetas e ofertas recompensam a qualidade do serviço, não são nunca um dever e devem em qualquer caso corresponder ao nível de vida Açoriano.

 

           

Artesanato e recordações :

Recuse categoricamente adquirir as recordações feitas de animais que observamos no mar ou arrancados do mar. Nos Açores poderão encontrar "comerciantes" que vos proponham objectos em osso ou em marfim de cachalote (não tatuados), dentes de golfinhos, assim como carapaças de tartaruga, conchas, maxilares de tubarão,...

O CITES (acordo internacional que regula o comércio de espécies ameaçadas) interdita formalmente este tipo de comércio. A União Europeia, da qual os Açores são membro, ratificou estes acordos (Decreto Regional n1/4 95/81 e Decreto-Lei å n1/4 316/89).

Neste domínio o objectivo do Espaço Talassa é duplo :

  • Informar sobre os perigos do comércio de marfim que é actualmente a única mercadoria de cachalote com valor, portanto um argumento para os caçadores.
  • Ajudar a manter vivo o artesanato local, favorecendo a utilização e a venda de material alternativo como a madeira, a pedra ou o marfim vegetal.
           

Em conjunto podemos fazer mais e melhor :

Espaço Talassa, compromete-se a doar 2% dos seus lucros das saídas para o mar ( por volta de 90 cêntimos de euros por bilhete) para a Associação Talassa (criada em 2003) que tem como principal objectivo:

  • Formação da equipa Espaço Talassa (cultura geral ou estágio específico) .
  • Acolhimento de estudantes estrangeiros ou bolsa de estágio para estudantes portugueses no seio da nossa equipa.
  • A adesão e apoio às associações de protecção ambientais (por exemplo Quercus).
  • Acções educativas nas escolas Açorianas, estágios de observação e saídas de mar a preço de custo para as escolas.

           

Falemos um pouco do futuro :

Nos Açores, os animais que observamos com tanto prazer, actualmente já (quase) não são vítimas da caça. Contudo, outros perigos bem mais súbtis, gerados igualmente pelo homem, continuam a atingí-los.

As diferentes formas de poluição e a sobre-pesca industrial contribuem para a desertificação dos mares. Se bem que seja necessário lutar contra estes dois flagelos, devemos também criar reservas aquáticas nas quais os cetáceos possam viver e reproduzir-se em tranquilidade.

A fim de evitar os excessos nefastos que podem advir do "sobre-desenvolvimento do "eco-turismo", " desde 1992 que o Espaço Talassa, em colaboração com a Universidade dos Açores e com o Governo Regional dos Açores, colabora na criação da regulamentação regional para o "whale watching".

Estamos convencidos que para apoiar esta nova regulamentação (Decreto Regional 99/9/A) será conveniente criar uma estrutura independente: "A Sociedade de Estudo e Protecção dos Mamíferos Marinhos dos Açores". Esta fundação será um primeiro passo para a criação de um "Santuário do Mar Açoriano".

O nascimento deste santuário no meio do Atlântico marcará uma verdadeira tomada de consciência sobre a incrível fragilidade dos maiores mamíferos do nosso planeta, amigos também dos homens que o povoam...

O desafio fica lançado, restam-nos percorrer muitas milhas, em conjunto, vocês como passageiros e nós como organizadores da viagem.

O Espaço Talassa esforçar-se-á tanto quanto possível para pôr em prática esta carta que constitui uma filosofia de viagem. A sua adesão a esta carta condicionará a sua participação a uma das nossas actividades. Assim, pedimos que compreendam o que o seu guia vos possa pedir, por razões de segurança, ou de respeito pelos homens ou animais, que altere o seu comportamento. Transportar-vos nas nossas costas é também ajudar-nos sem veemência a progredir, ao comunicar-nos a suas observações e comentários sobre o bom e o mau e sugerir-nos soluções.